Domingo, 19 de Agosto de 2007

LONGE VÃO OS TEMPOS …

Crónicas de uma saudade tão portuguesa e no entanto tão australiana com uns laivos de monegasco. Mas os olhinhos são nepaleses.   

1. A Bimby de Darwin

Longe vão os tempos em que as mulheres nos conquistavam pelo estômago.  As “nossas" mulheres pertencem a uma geração que  já  não sabe cozinhar. A nossa mãe ainda tinha algum jeito, mas nada comparável com a nossa avó, que fazia receitas inventadas pela mãe dela.  Há aqui um padrão  que me leva  a prever que a minha filha nunca irá  escalfar um ovo. 
Tal como a habilidade para trepar  árvores, detectar o perigo através do olfacto ou ter relações sexuais várias vezes ao dia com diferentes criaturas,  tudo são perdas e ganhos (não consegui arranjar exemplo de ganhos) de uma espécie que vive esta infinita viagem de adaptação. Darwin explicaria melhor que eu, não fosse o facto de eu estar vivo e ele não.  A verdade é que as mulheres perderam a capacidade de fazer comida. É por isso que os casamentos gay estão na moda - Nós precisamos de alguém que saiba cozinhar e já não são elas.
Tenho  amigos homossexuais (atenção que tenho mais que não são!) e todos  cozinham bem. Pouco, por causa do corpo, mas muito saboroso e com óptimo aspecto.  Vou escrevê-lo para que fique escrito –  mais facilmente um deles me conquistava pelo estômago que a maioria das mulheres que conheço. Se adicionarmos: a arrumação e bom gosto da casa, a capacidade de saber ouvir e de festejar com euforia os nossos feitos e o dom para  massagens - obtemos algo que é, no mínimo, cativante para um heterossexual dos nossos dias. E regressamos de novo a Darwin,  sem que ele tenha dado por isso, só para lhe pregar um susto e para evocar a sua palavra preferida – evolução. Não é descabido imaginar um futuro próximo em que a maioria dos casais é constituído por um heterossexual e um homossexual.  Para os que não estavam cá no início,  relembro que tudo começou com a falta de jeito das nossas mulheres para cozinhar. 
Nesta altura dava jeito culpar a globalização por esta nefasta mutação na raça humana, mas a palavra irrita-me e já foi feito.  Mas dá jeito.  Se olharmos para uma cozinha de uma casa de uma classe média/alta, as outras não conheço, o que vemos são máquinas. Quase apostaria, se fosse indivíduo de fazer apostas sozinho , que muitas daquelas máquinas frias e distantes executam tarefas semelhantes. Mas eu só sou o tipo que as pagou. Neste local inóspito, o mais parecido com a velha Lurdes, empregada e excelente cozinheira da minha avó, mulher capaz de grelhar e matar um porco, a maioria das vezes por esta ordem,  é a Bimby .  A Bimby ,  uma máquina que faz receitas completas e que se vê que as faz com algum carinho (pelo menos não suspira de enfado enquanto me faz o jantar) e que tem um nome apelativo, suficiente para nos fazer voltar atrás só para lhe pedir o número de telefone.  É uma excelente máquina. Para os que não conhecem o electrodoméstico em questão, e querem perceber melhor quais são as suas características técnicas, eu diria que, se várias Bimby estivessem numa praia de óculos escuros a apanhar sol e aparecesse uma excursão de microondas com garrafões e geleiras, elas levantavam-se e abandonavam a praia.  É assim que ela é.
A estória termina com um homem sozinho na cozinha com a sua Bimby e a sua máquina de café expresso. Um triângulo, que costuma ser usado como um bom começo mas que aqui serve para acabar.  E regressamos a Darwin, uma última vez, para lhe lembrar para apagar a vela antes de adormecer não vá pegar fogo às cortinas. Boa noite.
Publicada por OMal às 22:26
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