Domingo, 19 de Outubro de 2008

FOREST FIRE*

           Toda a vida fui um céptico. Deixei de acreditar no Pai Natal aos seis anos. Em Deus, aos onze. Em mim, aos dezoito.

          "...it’s a forest fire…” – Indiferente à situação, Loyd Cole continuava a cantar e a dedilhar a guitarra -  every time we come together - Resolvi desligar o rádio. Fiquei só com o som do limpa pára-brisas. O do lado esquerdo, chiando, completava o seu percurso de ida e volta no exacto tempo, cumprindo o que havia sido programado. O do lado direito, subia pelo vidro até embater no corpo. Estremecia um pouco e, como que assustado, fugia para o ponto de partida. Depois, movido pela curiosidade, voltava a fazer o mesmo. Desliguei-o. Agora, ficava só o ruído da chuva.

        Baixei os óculos e olhei mais perto.  Azul, cor de laranja...cor-de-laranja, não. Talvez dourado. Sim. Uma cor entre laranja e dourado. Uma cor que nunca tinha visto. A toda a volta, fragmentos com textura de escama. azuis...verdes...azuis...vermelho...Fragmentos que mudavam de cor. E no meio lá estava ela - uma fada.Uma fada esborrachada no meu pára-brisas. Tinha a face esmagada. Desfigurada.  Mas reconheci o corpo. Reconheci-o dos meus livros infantis; nestes dias, por tudo e nada, voltava à infância. 

Uma das asas moveu-se :“flap, flap, flap” , roçava ao de leve no vidro, ao mesmo tempo que lançava salpicos dourados-alaranjados. Parou de chover. Um sonido, como os que faziam os antigos telefones quando havia interferências na linha, juntou-se ao “flap” da asa. De repente, um dos olhos abriu e  fitou-me, minúsculo, através do vidro.

        Saí do carro. Ao contrário do que esperava, o frio não tornou a situação mais real.  Corri para o bosque que ladeava a estrada. Corri durante algum tempo, até me cansar da ideia. Através das árvores via o meu carro parado.

        Começou a escurecer e a escuridão empurrou-me de volta à estrada. Aproximei-me. Ao longo do vidro um rasto de cor. O ruído continuava, agora mais alto. Ela estava no capot e deslizava, lentamente, usando a asa como um remo. Despi  o casaco e bati-lhe com ele várias vezes. Não olhei. Não vi as cores que se espalhavam.

         Enterrei-a numa pequena cova, junto a uma árvore. Uma cova como aquela que a minha mãe abriu para que eu enterrasse o meu primeiro pássaro.

         Cheguei a casa tarde, estavam todos à minha espera para jantar. Sentei-me à mesa. Falámos do tempo e das notícias, enquanto; no bosque, as formigas, com movimentos nervosos e ordenados, carregavam escamas coloridas para o interior da terra.

 



*ver razão para este post no post anterior.
 

Publicada por OMal às 03:11
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