Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

O LONGO ESFÍNCTER DA CENSURA


O sketch dos Gato Fedorento sobre o Magalhães (elevado a eucaristia) foi alvo de vários protestos de católicos. Não há nada mais gostoso que tentar impor os nossos limites ao humor dos outros. Eu sei bem o que isso é porque já vi um sketch meu (Incorrigíveis do Sapo) ser proibido pela direcção das PFs, por conter referências a um dos Gato. Custa muito esta constante censura a que os pobres guionistas de humor estão sujeitos. Para verem o que nós, que escrevemos humor, sofremos, imaginem que: depois de cinco anos a escrever, semanalmente, o Visconde para o jornal A Bola, houve uma reunião de emergência, de uns indignados comediantes, e tudo acabou algumas semanas depois de ter escrito esta entrevista: 

VISCONDE NO ESPETO COM OS GATOS - JORNAL A BOLA - (23 de Julho de 2005)

Estava a contar as moscas que; qual nave Colombia, explodiam em luminosos pedaços quando entravam na atmosfera do meu mata-moscas eléctrico, quando entram pela porta; do meu mui afamado restaurant, os tão famosos -  Gatos Fedorentos - que coxeavam ligeiramente devido a ausência de um dos seus membros.
Ricardo Pereira: Queríamos três frangos, faz favor. Ainda bem que o encontramos, senhor.  Estávamos um bocado à nora porque hoje ainda não demos nenhuma entrevista. Mas antes de mais nada gostava de dizer que eu não sou actor. Nós somos gente modesta, sem pretensões. O facto de termos mudado para sempre o humor mundial não significa que somos uns génios como quase toda a gente diz por aí.      
Visconde: Pois.
Gato Fedorento 4: A maior parte da escrita de humor não foi inventada por nós. Charles Dickens, na sua grande obra - Great Expectations - recorria a ferramentas da escrita humorística.   
Visconde: Este rapaz tem muita graça. Foi este que ficou logo à frente do Herman na votação da revista do 24 Horas?
Ricardo Pereira: Foi.
Visconde: Vê-se logo.
Ricardo Pereira: Esse top é um bocado parvo, nós nem somos actores. Esse top só serve para ficarmos a saber a qual de nós é que as pessoas acham menos graça. Nós nem somos actores. Nós gostamos é de sentir que as nossas palavras provocam reacções nas pessoas.  
Visconde: Isso é simpático da sua parte. Sabem que felizmente há muito tempo que não tinha três lampiões no meu categorizado restaurant. A última vez que cá estiveram três benfiquistas foi aqui há uns meses, quando apareceram aí  o João Pereira, o Chalana, o Moreira e o Miguel.
Ricardo Pereira: Vou responder a essa ofensa, primeiro numa voz fininha e depois no meu tom de voz normal.
Visconde: Eu já vi isso em qualquer lado.
Gato Fedorento 3: Deve ter sido no nosso sketch do Homem que Sabe Tudo Sobre Vaginas.
Ricardo Pereira: Eu já lhe disse que nós não somos actores?
Visconde: Já sei! Podem não ser actores mas são excelentes tradutores. Isso de responder com vozes diferentes está no Sketch 1 – Face The Press – do espisódio 14 dos Monthy Python’s  Flying Circus.
Ricardo Pereira: Nós, que nem somos actores, gostamos muito dos Monthy.
Visconde: Eu já tinha reparado nisso. Porque vocês até lhes fizeram uma homenagem quando começaram os vossos espectáculos a vender Kunami fresquinho em vez do Albatroz! Que é o que os Monthy faziam no seu espectáculo ao vivo e no terceiro sketch do episódio 13.   É o mesmo episódio que tem o polícia que se veste de mulher e se quer vestir de mulher.
Gato Fedorento: Nós gostamos mesmo muito dos Python. E do Big Train que tem uma cena fantástica com uns tipos que se masturbam no escritório e ...
Ricardo Pereira: Piiiiiiiiiiiii! Acabou o teu tempo.
Gato Fedorento 4: Charles Dickens dizia que estava a chover quando estava a chover, que é uma forma suprema de ironia...
Ricardo Pereira: Piiiiiiiiiiiii! Acabou o teu tempo.
Visconde: Pois. Já vi o vosso sketch do adepto benfiquista. Está muito giro mas é um bocado lisonjeiro. Mas o vosso Sketch que eu mais gosto é aquele do Ministério do Silly Walks. Do tipo que tem um andar esquisito.
Ricardo Pereira: Mas nós não fizemos esse.
Visconde: Mas vão fazer de certeza. E vai ficar bem.
Gato Fedorento3: Já fizemos foi um tipo que entra ao pé coxinho para renovar a licença de poder andar ao pé coxinho na rua. É um bocado parec...
Ricardo Pereira: Piiiiiiiiiiiii! Acabou o teu tempo.
Visconde: Vocês agora estão sem clube. Quer dizer, sem canal de televisão.
Ricardo Pereira:     Andam todos os canais atrás de nós, vá lá saber-se porquê, eu não acredito que seja só porque triliões de pessoas nos acham o máximo, mas o que eu gostava mesmo era de ir para o Canal Benfica.
Visconde: Eu percebo. É um grande desafio.  Não há cá – Preços Certos em Euros ou “Morangos com Açúcar”, no Canal Benfica a concorrência em termos de comédia vai ser terrível.
Ricardo Pereira: E nós nem somos actores.   Eu já lhe disse que eu não sou actor?
Visconde: Já.
Ricardo Pereira: ...e que nós somos muito modestos e sabemos quão insignificante é a nossa obra?
Visconde: Já!!!
Gato Fedorento 4: O Dickens também era algo repetitivo e...
Ricardo Pereira: Piiiiiiiiii!

 

PS: e para que eu não ficasse com dúvidas sobre quem eram os autores de tão nobre gesto (e do seu incomensurável poder), a última crónica do Zé Manel (escrita por dois Gato e cujo apressado fim levou à extinção do Visconde) terminava com, e passo a citar: acabam aqui as crónicas do Zé Manel, uns vão ficar tristes, outros menos e ainda há outros que vão ter de ir à procura de trabalho. 
 

Publicada por OMal às 17:33
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