Crónicas de uma saudade tão portuguesa e no entanto tão australiana com uns laivos de monegasco. Mas os olhinhos são nepaleses.
1. A Bimby de DarwinLonge vão os tempos em que as mulheres nos conquistavam pelo estômago. As “nossas" mulheres pertencem a uma geração que já não sabe cozinhar. A nossa mãe ainda tinha algum jeito, mas nada comparável com a nossa avó, que fazia receitas inventadas pela mãe dela. Há aqui um padrão que me leva a prever que a minha filha nunca irá escalfar um ovo.
Tal como a habilidade para trepar árvores, detectar o perigo através do olfacto ou ter relações sexuais várias vezes ao dia com diferentes criaturas, tudo são perdas e ganhos (não consegui arranjar exemplo de ganhos) de uma espécie que vive esta infinita viagem de adaptação. Darwin explicaria melhor que eu, não fosse o facto de eu estar vivo e ele não. A verdade é que as mulheres perderam a capacidade de fazer comida. É por isso que os casamentos gay estão na moda - Nós precisamos de alguém que saiba cozinhar e já não são elas.
Tenho amigos homossexuais (atenção que tenho mais que não são!) e todos cozinham bem. Pouco, por causa do corpo, mas muito saboroso e com óptimo aspecto. Vou escrevê-lo para que fique escrito – mais facilmente um deles me conquistava pelo estômago que a maioria das mulheres que conheço. Se adicionarmos: a arrumação e bom gosto da casa, a capacidade de saber ouvir e de festejar com euforia os nossos feitos e o dom para massagens - obtemos algo que é, no mínimo, cativante para um heterossexual dos nossos dias. E regressamos de novo a Darwin, sem que ele tenha dado por isso, só para lhe pregar um susto e para evocar a sua palavra preferida – evolução. Não é descabido imaginar um futuro próximo em que a maioria dos casais é constituído por um heterossexual e um homossexual. Para os que não estavam cá no início, relembro que tudo começou com a falta de jeito das nossas mulheres para cozinhar.
Nesta altura dava jeito culpar a globalização por esta nefasta mutação na raça humana, mas a palavra irrita-me e já foi feito. Mas dá jeito. Se olharmos para uma cozinha de uma casa de uma classe média/alta, as outras não conheço, o que vemos são máquinas. Quase apostaria, se fosse indivíduo de fazer apostas sozinho , que muitas daquelas máquinas frias e distantes executam tarefas semelhantes. Mas eu só sou o tipo que as pagou. Neste local inóspito, o mais parecido com a velha Lurdes, empregada e excelente cozinheira da minha avó, mulher capaz de grelhar e matar um porco, a maioria das vezes por esta ordem, é a Bimby . A Bimby , uma máquina que faz receitas completas e que se vê que as faz com algum carinho (pelo menos não suspira de enfado enquanto me faz o jantar) e que tem um nome apelativo, suficiente para nos fazer voltar atrás só para lhe pedir o número de telefone. É uma excelente máquina. Para os que não conhecem o electrodoméstico em questão, e querem perceber melhor quais são as suas características técnicas, eu diria que, se várias Bimby estivessem numa praia de óculos escuros a apanhar sol e aparecesse uma excursão de microondas com garrafões e geleiras, elas levantavam-se e abandonavam a praia. É assim que ela é.
A estória termina com um homem sozinho na cozinha com a sua Bimby e a sua máquina de café expresso. Um triângulo, que costuma ser usado como um bom começo mas que aqui serve para acabar. E regressamos a Darwin, uma última vez, para lhe lembrar para apagar a vela antes de adormecer não vá pegar fogo às cortinas. Boa noite.